ARQUITETURA DO AFETO: UMA CASA CONSTRUÍDA A PARTIR DAS LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA

Em uma época em que as casas costumam ser pensadas para a velocidade da vida contemporânea, uma residência erguida na Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz (SP), segue na direção oposta: foi criada para desacelerar, reunir pessoas e preservar histórias. Com 2 mil metros quadrados e projeto assinado por Deborah Roig, a casa nasceu do desejo de uma família de resgatar a atmosfera das fazendas onde os proprietários passaram a infância. Mais do que reproduzir uma estética rural, a proposta era traduzir em arquitetura sensações de pertencimento, acolhimento e convivência.

As referências aparecem logo na chegada. Tijolos aparentes, telhados coloniais e volumes generosos evocam construções tradicionais do interior brasileiro, enquanto os ambientes amplos convidam ao encontro entre diferentes gerações. O programa inclui oito suítes, áreas de convivência, cozinha gourmet, salas de estar e espaços de lazer pensados para receber pais, filhos e netos.
Segundo Deborah Roig, o desafio não era apenas projetar uma casa bonita, mas transformar memórias afetivas em espaços concretos. A arquitetura tornou-se uma ferramenta para contar uma história familiar, criando cenários para novas lembranças.

Nos interiores, o passado e o presente convivem sem conflitos. Peças de antiquário dividem espaço com mobiliário assinado por designers brasileiros contemporâneos, em uma composição que evita a nostalgia excessiva e aposta na continuidade das narrativas familiares. Ao longo dos três anos de desenvolvimento do projeto, os moradores também construíram uma coleção de arte que reúne nomes como Vik Muniz e Christian Cravo, ampliando o caráter afetivo da residência.
A relação com a paisagem é outro elemento central. Grandes aberturas conectam os ambientes ao jardim e à piscina, cercados pelo paisagismo de Gilberto Elkis. A integração entre interior e exterior reforça uma forma de viver que valoriza o contato com a natureza e os momentos compartilhados ao ar livre.

Em tempos de hiperconexão e rotinas aceleradas, a casa propõe algo simples e, por isso mesmo, cada vez mais raro: um lugar para reunir a família, celebrar as origens e construir novas histórias. Mais do que uma residência de campo, o projeto revela como a arquitetura pode funcionar como guardiã de memórias, transformando lembranças individuais em espaços capazes de atravessar gerações.
Projeto: Debora Roig
Fotografia: Divulgação
















